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Hemingway Working

julho 16, 2011

Eram belas as lascas de lápis que pareciam asas de algum inseto indefinido ou borboleta prestes a esvoaçar do pires para qualquer parte de Paris. Apenas mais tarde descobri que o apontador de lápis não era utilizado para que os contos surgissem do casulo, mas por motivos de economia que um prático e viril canivete desperdiçaria em poucos cortes que trariam de volta a clareza do grafite nas letras. A pesada mão de boxeur de Hemingway faziam plié para que a ponta não se quebrasse. Observo o developpé do lápis a cada parágrafo da folha de seu caderno universitário preencher páginas com ações ao invés de descrições. Sei que excesso de vírgulas, adjetivos e advérbios pode transformar todo o trabalho de ourivesaria em ouropel. Vendo seu ofício como fosse o de um ourives, penso no meu artifício e ócio em redigir um manual com instruções para desmontar a putrefata estrutura aristotélica de unidade que se perpetua: espaço, tempo e ação. Percebo que a borracha de Hemingway trabalha tanto quanto o mata-borrão mental que só seria perceptível para quem observasse o fio que se forma no franzir da testa, numa ruga no canto direito na boca, na respiração lenta de quem luta aos punhos com a linguagem. Não me lembro se foi Hemingway ou Cortázar (ou nenhum dos dois) que comparou o romance e o conto a uma luta de boxe que em um gênero se ganha por pontos e noutro por nocaute. Apesar de a expressão me convidar para o corner, para o clinch, como um sparring literário, a imagem de Hemingway trabalhando sempre me trazia a paz do pas de basque, pas debourrée, pas de chat, pas de cheval. Ainda me recordo depois desta ocasião, neste mesmo Café, depois do expediente, Hemingway me confidenciar que para começar um conto precisava apenas de uma frase realmente verdadeira. Por minha vez, disse-lhe que eu precisava apenas de uma frase poética, que não precisava necessariamente ser uma verdade nova ou uma aventura, precisava apenas de palavras. Entretanto, não sei se foi com Hemingway ou Faulkner que aprendi que bom escritor não ensina, insinua.

Quem visse Hemingway trabalhar nos Cafés, afastado de toda gente, com uma xícara de cafe au lait bebida pela metade e esfriada pelo tempo — tão diferente do lírico Borges devorador de milk-shakes — manteria silêncio e distância segura. Naquela manhã a leitura de um Fritzgerald me provava o quanto era frívoJla a fama e o quanto era pequeno seu Gatsby. A eu via a vocação de Weber no trabalho de Hemingway, a inspiração ocorrida apenas e após longo esforço profundo, que a inspiração não substitui o trabalho, mas este, por outro lado, não poderia substituir, nem forçar o surgimento da inspiração. O trabalho e a paixão provocam a inspiração, especialmente quando ambos atuam juntos. As últimas trinta páginas de Joyce que valem uma vida ainda estavam na minha memória: Molly Bloom deitada para sempre sobre um colchão sujo, fumando e fazendo de cabeça a contabilidade de seus adultérios. Isso só era possível em Paris — a cidade das possibilidades infinitas — como alguém já escreveu. Sorvo um capuchino com gerúndio e ruído tão avesso à etiqueta, ao bom modo à mesa, mano a mano, frente a frente ao meu semblable, meu adversário, meu frère, a espera que me surgisse na cabeça uma frase de efeito que quebrasse a quietude e terminasse este shadow boxing diante do espelho.

Penso em partir para o ataque como um desafiante que não tem nada a perder. Com a Parker que o Fábio me presenteou no peito, levanto, aproximo, peço licença e um autógrafo.

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