Skip to content

Impossível Piva

novembro 15, 2012

A impossibilidade de calcular o perímetro dos dias circulares pela apaixonada fórmula de Pi 3,14 voltas me devolveu aos pentágonos poéticos de Piva. Recordo-me da revista trazida por Fábio e do comentário de Marcos quando estarrecido disse-lhe: “Perdemos o Piva”. — e ele respondeu: “Ele continua por aí”. Por um instante perguntei-me por quais mãos poderiam ter vindo Roberto Piva, das mesmas mãos ocultas que me apresentaram Caio Fernando Abreu? As mesmas que me levaram à Santa Cecília, a um prédio protegido por um porteiro palmeirense, para um apartamento empoeirado, engordurado, cheio de livros e gentilezas? Pouco importa quando há uma página que não pára de ser lida, uma passagem de trem sem volta, uma janela no peito que nunca se fecha nos dias de chuva & nos dias de sol. Não há fechadura para o abismo, o labirinto, a casa sete. Não há elevador para os degraus descidos das vértebras e tampouco vôo reverso da roleta-borboleta. Não há verdades ou mentiras nas páginas vencidas, só há literatura urbana. Não há caminho cruzado e sinal fechado por portas que ao invés de trazerem as placas que dividem o lado masculino do feminino escreve na troca de olhares os seguintes dizeres: Nuncamais.

Eu estava meditando beatlemente nos impudores púlpitos de minhas tristezas quilometradas pela sensível persiana semi-aberta do peito para a platéia. Escrevo, ensaio, traduzo (traio) meus sentimentos e acontecimentos privados para o domínio público. “In my home page. I’ve loved them all”. Era o tédio roendo a realidade de uma solidão intelectual em meio delirante, preparado para mais um dia prosaico, amargo e pegajoso, mas enquanto formava esqueletos de fósforos riscados, alguma coisa se incendiava em mim, enquanto fagulhas de chuva abriam pequenas feridas transversais na pele de São Paulo.

Sinto que estou me perdendo em meio às palavras. Esta deveria ser uma crônica em linha reta, uma trilha de trilhos & manacás, mas sou um homem movido por paixões e frustrações secas & álcool que escapa pelos poros de minha pele, polenizando a discórdia na cidade, polemizando com Montecchios & Capuletos, que mora com o inimigo e dorme com fadas viciadas em analgésicos & antidepressivos. Certa vez, o Sgt. Pepper e Lautréamont falaram-me do quanto sou Sturm und Drang quando deveria ser mais Sex and Drogs e sofrer menos do mal d’amor & solidão nas caixas de supermercado, nas caixas do correio eletrônico. Gerânios & gerúndios geram em mim a sensação de que estou girando à beira das vinhas da ira. Carrego uma taça em cacos entre os dedos, mas não é minha mão que sangra.

Antes que me perca, dou um passo atrás, recomponho minha memória e retorno ao comentário do Marcos: “Ele continua por aí”. Uma névoa perdida por beijos, acareações e confrontações me faz lembrar que não estou Londres, Dublin ou Lisboa, erro por toda São Paulo em palpitação, em elétrica face que pede paranóica e obsessivamente: “Preciso encontrar o Piva. Preciso encontrar o Piva. Preciso encontrar o Piva”. Noite anarquista tão pouco propícia para cinemas e assassinatos. Ainda lembro da cena a qual o Poeta provocou o Príncipe-sociólogo quando este foi declarado “o intelectual do ano” e Piva completamente bêbado se auto-declarou em alto e bom som: “o intelectual do anus”. Ler Piva é ler com o corpo.

São Paulo é a cidade dos lábios tristes e trêmulos diante de um revólver, das palavras de revolta, de uma iminente derrota, do sinal fechado, dos ressentimentos privados em lugares públicos, do fracasso do amor. O apartamento de Piva era a última possibilidade poética de paredes, gordura e pó, nas infinitas proposições prosaicas de São Paulo e sua insustentável solidão. Última possibilidade de passar em um supermercado e comprar cervejas & brócolis para preparar 20 poemas, mandar à merda todos os deveres e imperativos categóricos. Na cidade suja, na velocidade dos outdoors: vi que suas asas batiam contra o coração do mundo — Ninguém abria. As coxas e os seios estão fechados para liquidação. Os versos & manifestos seriam inúteis para abrir os ouvidos da São Paulo surda, muda para suas misérias. Projetos anarco-poéticos como o de transformar a Praça da Sé em horta coletiva & pública, pintar desenhos obscenos nas ruas e rabiscar palavrões em placas de próceres & militares — “A política pela próstata”. — como apregoava Piva, mas tudo seria inútil e impossível, como era impossível passar pelo Largo da Santa Cecília, pela porta de seu prédio com aquele simpático porteiro palmeirense, impossível não pensar em encontrá-lo por acaso flanando em sentido oposto ao meu.

Por essas possibilidades, procurei por Piva, pensei em caminharmos pelas ruas de São Paulo, pois São Paulo é tão só & precisa de nossa Cia. Da companhia de poetas esquecidos pela sistemática política do esquecimento dos amores e editores, dos telefones que não tocam, dos emails lidos e nunca respondidos, da caixa do correio cheia de cartas de cobranças: — Os bancos nunca nos esquecem — por isso saímos dos porões da vida para percorrer as vielas e alamedas do Centro quando toda gente decente e temente a Deus e aos pequenos criminosos da Cracolândia dorme protegida por muros & cercas elétricas que não as protegem de seu próprio mal, que vem através dos televisores e pesadelos, que estão ocultados nos guarda-roupas e geladeiras, enquanto atravessamos praças tomadas por putas e adolescentes bêbados por vodka e vinho barato.

Encontro-o na Praça da República. Ele olha em minha direção, mas seus olhos de caleidoscópio não me vêem. Naquele momento, Piva dedicava suas palavras aos adolescentes que lhe escreviam “Don’t remember me” nas árvores. Seu coração era apenas uma pensão por onde passavam impúberes em anos de aprendizado.  Allen Ginsberg não viria esta noite. Sete sanduíches capitais enchiam os estômagos andróginos dos adolescentes que cercavam Piva, enquanto ele falava do homossexualismo de Da Vinci e de como o renascentista acreditava que o pensamento é o compasso que corrige a emoção. Fruta-cor, fruta da paixão mordida.

Interrompo a pederasta palestra da Confraria, recordo que Federico Garcia Lorca nos espera com seu rosto pálido como um ovo e seus olhos de aborto logo seriam reduzidos a retratos em algum bar no Brás. Minhas palavras são cortantes: “O tempo passa. Ele nos consome. O tempo passa”. Qualquer passo, qualquer crime, qualquer fuga, é uma calculável conjectura, um plano cartesiano, porém Lorca era um poeta predestinado a morrer — uma caixa craniana acústica sem salvação pronta para explodir, um peito nublado pelo medo prestes a ser atravessado por balas e flores. Um relâmpago de alucinação na ponta dos seus olhos me cega, da garganta repleta de trovões, o diálogo:

— Tenho que correr.

— Temos que correr!

— A toda velocidade.

— A toda velocidade!           

(To be continued ou cenas dos próximos capítulos: Piva procura por Lorca em Nova York).

Anúncios