Sugestão para perpetuar o Agosto
“Ontem à noite, eu conheci uma guria, que eu já conhecia
De outros carnavais, com outras fantasias
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão”.
(ENGENHEIROS DO HAWAII, Piano Bar)
“Ya no se encantará mis ojos en tus ojos
Ya no se endulzará junto a ti mi dolor
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
Hacia donde camines llevarás mi dolor”.
(TITÃS & FITO PÁEZ, Go back/Farewell y los Sollozos)
A passagem pelo bar Don Feliciano me traz a perspectiva de uma tartaruga, réptil ou qualquer bicho próximo ou abaixo do solo. Estou abaixo do nível da rua, sentado em uma cadeira ao lado de uma janela que permite aos meus olhos a proximidade dos pés que passam, das pernas mutantes e fugazes, moventes, enquanto não me movo de minha cadeira com meus olhos de camaleão tão movediços quase underground, protegidos pelas vidraças da janela e de meus óculos. O som das vozes que chegam aos ouvidos me lembram alguma película filmada por Marcelo, mas este não é o princípio que eu queria dar ao texto, o começo deveria ser assim:
Começou quando Fábio me deixou em casa no final de uma madrugada de bebedeira. Era quase dia, quando embriagado e sem sono, abri um email que perguntava por Shakespeare e por mim. Não, ainda não era Canción para mi muerte. Era uma atriz que perguntava por Lady Macbeth. Fiquei surpreso com a mensagem e respondi com a mesma generosidade que Tatiana, Gabi F. e Malu me responderam. A tal atriz perguntava pelo artista que eu já não era naquele final de noite, naquela quase manhã. Respondi que falaria com William, que ultimamente tem deixado o teatro de lado para dedicar-se à pequena usura, pois de minha parte não haveria problema algum, pois meus direitos autorais são de domínio público embora ainda não tenha sido enterrado.
Podia ser qualquer parte, mas era Porto Alegre: possível, passageira. Sexta-feira. Agosto. Ao aterrissar, lembrei do Caio e de suas Sugestões para atravessar agosto, de atravessar os dias sem olhar os dois lados da rua, desviar da loucura dos cachorros, não esquecer das pastillas para no soñar de Sabina (porque quando bons nos deixam a vontade impossível de morar neles), a furiosa pétala de sal de Fito (nada importa en la ciudad si nada espera), o english tea ou conhaque para superar o medo do minuano. Pensei em visitá-lo no Menino Deus, para ver sua luta pela vida, para abrir as veredas de um jardim sem chaves, para desfazer o caminho das formigas. Porém sabia que poderia surgir qualquer novo conflito entre nós caso eu dissesse que neste ano agosto é belo.
Depois de desembarcar, me hospedar, bancar o turista gringo e comer da carne local, parti para a Usina do Gasômetro. Cheguei anônimo e não reconheci ninguém até que começasse a peça e uma louca Lady com voz siamesa chamava por seu homem: “Macbeth, Macbeth, Macbeth”. Depois disso ouvi à distância um texto que de um modo até hoje me soa como fruto de uma inspiração inexplicável que foi colhido por minha mão. Ingrid e aquele anjo que até agora não me recordo o nome moviam: flores, fogo, espadas & espelhos — as inesquecíveis mãos. Todo um drama em um único ato. Aplausos & Abraços.
Um sarau na faculdade de arte após a apresentação. Atores por todos os lados e um escritor que a todo o momento era apresentado. Havia uma banda que ninguém ouvia tocando. Até que começaram as performances teatrais e poéticas. Uma atriz se pôs no palco para falar a história de sua família enquanto era provocada por um clown do público. Uma guria desconhecida e bêbada, meio-Joplin-meio-Maísa, apanhou o microfone e começou a recitar um poema que ninguém conhecia e me fez abandonar toda e qualquer conversa fútil ou útil porque o poeta que saía por sua boca era “Roberto Piva”. — eu disse para mim mesmo e para todos aqueles que nos cercavam e ignoravam a proveniência do poema e da voz.
A guria mal desceu do pequeno palco e repeti porque sabia que apenas ela entenderia o significado e a senha: “Roberto Piva”. Ela sorriu, embora estivesse irritada com o público que ignorou toda a poética que partia por um fio de alta tensão de seus lábios para os alto falantes. Falei-lhe que certa vez Saramago escreveu um Ensaio sobre a cegueira embora devesse ter escrito também um Ensaio sobre a surdez ao invés de tentar abordar a lucidez. Foi início do nosso diálogo que se estendeu por mais uma cerveja no sarau e mais algumas outras em um bar qualquer da zona sul. O vento em nossos rostos e apenas as palavras e o frio nos devoravam os ossos. Uma garoa fina e gelada aproximou nossos corpos carentes de calor e aconchego. Na porta de seu prédio nos despedimos. Combinamos nos encontrarmos na segunda apresentação da peça no dia seguinte, havíamos também combinado um churrasco com carne uruguaia para o domingo. Promessas que poderiam ser esquecidas por qualquer ressaca.
Sábado. O centro me fez flanar pela cidade. Há qualquer coisa de baudelaireano em Olinda, Porto Alegre e Rosário. É como se a cidade te convidasse a pisar cada centímetro de seu perímetro. Meus pés no interior de uma all-star já não suportava mais a planície daquele lugar. Voltei para o hotel e recorri ao ônibus para não chegar à Usina do Gasômetro atrasado. Enquanto esperava a abertura das portas do teatro, uma cena beat robou a cena. Ela chegou correndo, ofegante, com uma garrafa de cerveja longneck na mão. Foi uma surpresa para quem há muito tempo não esperava que promessa de bêbado fosse cumprida. Ela me ofereceu seu resto de cerveja preta, doce, aquecida por sua corrida. Foi tão belo o ato que não consegui recusar, da mesma forma que não consegui recusar seu conseqüente beijo: lábios com gosto de malzebier.
Fomos a um antigo bar cuja idade e antigüidade desconheço. Todavia todos os freqüentadores que conheci me pareciam familiares. Uma sugestão de pizza com brócolis para recordar Piva nos alimentou, antes que ela recitasse Fernando Pessoa para ser ouvida e aplaudida por todos. Depois do bar, despida de poesia, do vestido e do amor, não havia heterônimos em seu nome. Todo Pessoa era grafite riscado em sua pele e o resto era silêncio & anonimato.
Domingo. Tarde em que um aipim com alho proveniente da feira ecológica e um Chagall eram só uma possibilidade de vôo a 33º de latitud. Eu me perguntava de quais páginas ela teria escapado: Bukowski, Kerouac, Fante? Perdi a metade do dia relendo os livros na memória para voltar ao sempre próximo Cortazar à mão. Maga estava a meu lado e não chorava seu Rocamadour para sempre perdido. Contei seu terceiro fio branco e compreendi a qual margem do rio estávamos. Uma taça cheia de veneno e vinho precedeu nosso sono sem sonho ou pesadelo. Acordamos e nossos compromissos reais nos separaram. Fui à terceira apresentação para ver uma atriz mais precisa, mais lenta e prolixa, menos trágica a beira do abismo ou desastre. Cada ato parecia premeditado, a possibilidade de um crime quase perfeito. Os aplausos com louvor e distinção apontavam para um caminho que precisava apressadamente ser percorrido. Tão corrido quanto minha volta ao centro caótico da cidade que naquela hora era calma: apenas o silêncio de um vulcão em atividade e um Inverno dentro de mim que me fazia cantar aquela fábrica de poemas de longas cartas para ninguém: “No dia em que fui mais feliz, eu vi um avião”. Corri para não perder o vôo de Chagall, corri em contagem regressiva, corri com um poema de Cazuza na cabeça: “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa”. Voltei para a despedida, para o adeus, embora soubesse que havia perdido a provisória possibilidade de encontrar Caio no Menino Deus. Não sofri por saber que ele sempre estará comigo em qualquer parte: Paris, Londres, Porto Alegre, São Paulo ou Dinamarca. A impossibilidade de perpetuar o Agosto numa permanente Polaroid: Flávia, Patrícia, Ana Paula & P. A verdadeira despedida naquela noite não era um poema de Piva. A flor d’embora despetalava o adeus. Um recorrente Neruda mesclado com Adriana Calcanhotto me fazia recordar que o destino sempre me quis só, sem saudade, sem remorso, sem sangue, sem saia, sem saída ao ver a realidade em todo o Guaíba contido nos olhos da guria que não derramou e jamais derramaria por mim.
