Sugestão para perpetuar o Agosto
“Ontem à noite, eu conheci uma guria, que eu já conhecia
De outros carnavais, com outras fantasias
Ela apareceu, parecia tão sozinha
Parecia que era minha aquela solidão”.
(ENGENHEIROS DO HAWAII, Piano Bar)
“Ya no se encantará mis ojos en tus ojos
Ya no se endulzará junto a ti mi dolor
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
Hacia donde camines llevarás mi dolor”.
(TITÃS & FITO PÁEZ, Go back/Farewell y los Sollozos)
A passagem pelo bar Don Feliciano me traz a perspectiva de uma tartaruga, réptil ou qualquer bicho próximo ou abaixo do solo. Estou abaixo do nível da rua, sentado em uma cadeira ao lado de uma janela que permite aos meus olhos a proximidade dos pés que passam, das pernas mutantes e fugazes, moventes, enquanto não me movo de minha cadeira com meus olhos de camaleão tão movediços quase underground, protegidos pelas vidraças da janela e de meus óculos. O som das vozes que chegam aos ouvidos me lembram alguma película filmada por Marcelo, mas este não é o princípio que eu queria dar ao texto, o começo deveria ser assim:
Começou quando Fábio me deixou em casa no final de uma madrugada de bebedeira. Era quase dia, quando embriagado e sem sono, abri um email que perguntava por Shakespeare e por mim. Não, ainda não era Canción para mi muerte. Era uma atriz que perguntava por Lady Macbeth. Fiquei surpreso com a mensagem e respondi com a mesma generosidade que Tatiana, Gabi F. e Malu me responderam. A tal atriz perguntava pelo artista que eu já não era naquele final de noite, naquela quase manhã. Respondi que falaria com William, que ultimamente tem deixado o teatro de lado para dedicar-se à pequena usura, pois de minha parte não haveria problema algum, pois meus direitos autorais são de domínio público embora ainda não tenha sido enterrado.
Podia ser qualquer parte, mas era Porto Alegre: possível, passageira. Sexta-feira. Agosto. Ao aterrissar, lembrei do Caio e de suas Sugestões para atravessar agosto, de atravessar os dias sem olhar os dois lados da rua, desviar da loucura dos cachorros, não esquecer das pastillas para no soñar de Sabina (porque quando bons nos deixam a vontade impossível de morar neles), a furiosa pétala de sal de Fito (nada importa en la ciudad si nada espera), o english tea ou conhaque para superar o medo do minuano. Pensei em visitá-lo no Menino Deus, para ver sua luta pela vida, para abrir as veredas de um jardim sem chaves, para desfazer o caminho das formigas. Porém sabia que poderia surgir qualquer novo conflito entre nós caso eu dissesse que neste ano agosto é belo.
Depois de desembarcar, me hospedar, bancar o turista gringo e comer da carne local, parti para a Usina do Gasômetro. Cheguei anônimo e não reconheci ninguém até que começasse a peça e uma louca Lady com voz siamesa chamava por seu homem: “Macbeth, Macbeth, Macbeth”. Depois disso ouvi à distância um texto que de um modo até hoje me soa como fruto de uma inspiração inexplicável que foi colhido por minha mão. Ingrid e aquele anjo que até agora não me recordo o nome moviam: flores, fogo, espadas & espelhos — as inesquecíveis mãos. Todo um drama em um único ato. Aplausos & Abraços.
Um sarau na faculdade de arte após a apresentação. Atores por todos os lados e um escritor que a todo o momento era apresentado. Havia uma banda que ninguém ouvia tocando. Até que começaram as performances teatrais e poéticas. Uma atriz se pôs no palco para falar a história de sua família enquanto era provocada por um clown do público. Uma guria desconhecida e bêbada, meio-Joplin-meio-Maísa, apanhou o microfone e começou a recitar um poema que ninguém conhecia e me fez abandonar toda e qualquer conversa fútil ou útil porque o poeta que saía por sua boca era “Roberto Piva”. — eu disse para mim mesmo e para todos aqueles que nos cercavam e ignoravam a proveniência do poema e da voz.
A guria mal desceu do pequeno palco e repeti porque sabia que apenas ela entenderia o significado e a senha: “Roberto Piva”. Ela sorriu, embora estivesse irritada com o público que ignorou toda a poética que partia por um fio de alta tensão de seus lábios para os alto falantes. Falei-lhe que certa vez Saramago escreveu um Ensaio sobre a cegueira embora devesse ter escrito também um Ensaio sobre a surdez ao invés de tentar abordar a lucidez. Foi início do nosso diálogo que se estendeu por mais uma cerveja no sarau e mais algumas outras em um bar qualquer da zona sul. O vento em nossos rostos e apenas as palavras e o frio nos devoravam os ossos. Uma garoa fina e gelada aproximou nossos corpos carentes de calor e aconchego. Na porta de seu prédio nos despedimos. Combinamos nos encontrarmos na segunda apresentação da peça no dia seguinte, havíamos também combinado um churrasco com carne uruguaia para o domingo. Promessas que poderiam ser esquecidas por qualquer ressaca.
Sábado. O centro me fez flanar pela cidade. Há qualquer coisa de baudelaireano em Olinda, Porto Alegre e Rosário. É como se a cidade te convidasse a pisar cada centímetro de seu perímetro. Meus pés no interior de uma all-star já não suportava mais a planície daquele lugar. Voltei para o hotel e recorri ao ônibus para não chegar à Usina do Gasômetro atrasado. Enquanto esperava a abertura das portas do teatro, uma cena beat robou a cena. Ela chegou correndo, ofegante, com uma garrafa de cerveja longneck na mão. Foi uma surpresa para quem há muito tempo não esperava que promessa de bêbado fosse cumprida. Ela me ofereceu seu resto de cerveja preta, doce, aquecida por sua corrida. Foi tão belo o ato que não consegui recusar, da mesma forma que não consegui recusar seu conseqüente beijo: lábios com gosto de malzebier.
Fomos a um antigo bar cuja idade e antigüidade desconheço. Todavia todos os freqüentadores que conheci me pareciam familiares. Uma sugestão de pizza com brócolis para recordar Piva nos alimentou, antes que ela recitasse Fernando Pessoa para ser ouvida e aplaudida por todos. Depois do bar, despida de poesia, do vestido e do amor, não havia heterônimos em seu nome. Todo Pessoa era grafite riscado em sua pele e o resto era silêncio & anonimato.
Domingo. Tarde em que um aipim com alho proveniente da feira ecológica e um Chagall eram só uma possibilidade de vôo a 33º de latitud. Eu me perguntava de quais páginas ela teria escapado: Bukowski, Kerouac, Fante? Perdi a metade do dia relendo os livros na memória para voltar ao sempre próximo Cortazar à mão. Maga estava a meu lado e não chorava seu Rocamadour para sempre perdido. Contei seu terceiro fio branco e compreendi a qual margem do rio estávamos. Uma taça cheia de veneno e vinho precedeu nosso sono sem sonho ou pesadelo. Acordamos e nossos compromissos reais nos separaram. Fui à terceira apresentação para ver uma atriz mais precisa, mais lenta e prolixa, menos trágica a beira do abismo ou desastre. Cada ato parecia premeditado, a possibilidade de um crime quase perfeito. Os aplausos com louvor e distinção apontavam para um caminho que precisava apressadamente ser percorrido. Tão corrido quanto minha volta ao centro caótico da cidade que naquela hora era calma: apenas o silêncio de um vulcão em atividade e um Inverno dentro de mim que me fazia cantar aquela fábrica de poemas de longas cartas para ninguém: “No dia em que fui mais feliz, eu vi um avião”. Corri para não perder o vôo de Chagall, corri em contagem regressiva, corri com um poema de Cazuza na cabeça: “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa”. Voltei para a despedida, para o adeus, embora soubesse que havia perdido a provisória possibilidade de encontrar Caio no Menino Deus. Não sofri por saber que ele sempre estará comigo em qualquer parte: Paris, Londres, Porto Alegre, São Paulo ou Dinamarca. A impossibilidade de perpetuar o Agosto numa permanente Polaroid: Flávia, Patrícia, Ana Paula & P. A verdadeira despedida naquela noite não era um poema de Piva. A flor d’embora despetalava o adeus. Um recorrente Neruda mesclado com Adriana Calcanhotto me fazia recordar que o destino sempre me quis só, sem saudade, sem remorso, sem sangue, sem saia, sem saída ao ver a realidade em todo o Guaíba contido nos olhos da guria que não derramou e jamais derramaria por mim.
Hemingway Working
Eram belas as lascas de lápis que pareciam asas de algum inseto indefinido ou borboleta prestes a esvoaçar do pires para qualquer parte de Paris. Apenas mais tarde descobri que o apontador de lápis não era utilizado para que os contos surgissem do casulo, mas por motivos de economia que um prático e viril canivete desperdiçaria em poucos cortes que trariam de volta a clareza do grafite nas letras. A pesada mão de boxeur de Hemingway faziam plié para que a ponta não se quebrasse. Observo o developpé do lápis a cada parágrafo da folha de seu caderno universitário preencher páginas com ações ao invés de descrições. Sei que excesso de vírgulas, adjetivos e advérbios pode transformar todo o trabalho de ourivesaria em ouropel. Vendo seu ofício como fosse o de um ourives, penso no meu artifício e ócio em redigir um manual com instruções para desmontar a putrefata estrutura aristotélica de unidade que se perpetua: espaço, tempo e ação. Percebo que a borracha de Hemingway trabalha tanto quanto o mata-borrão mental que só seria perceptível para quem observasse o fio que se forma no franzir da testa, numa ruga no canto direito na boca, na respiração lenta de quem luta aos punhos com a linguagem. Não me lembro se foi Hemingway ou Cortázar (ou nenhum dos dois) que comparou o romance e o conto a uma luta de boxe que em um gênero se ganha por pontos e noutro por nocaute. Apesar de a expressão me convidar para o corner, para o clinch, como um sparring literário, a imagem de Hemingway trabalhando sempre me trazia a paz do pas de basque, pas debourrée, pas de chat, pas de cheval. Ainda me recordo depois desta ocasião, neste mesmo Café, depois do expediente, Hemingway me confidenciar que para começar um conto precisava apenas de uma frase realmente verdadeira. Por minha vez, disse-lhe que eu precisava apenas de uma frase poética, que não precisava necessariamente ser uma verdade nova ou uma aventura, precisava apenas de palavras. Entretanto, não sei se foi com Hemingway ou Faulkner que aprendi que bom escritor não ensina, insinua.
Quem visse Hemingway trabalhar nos Cafés, afastado de toda gente, com uma xícara de cafe au lait bebida pela metade e esfriada pelo tempo — tão diferente do lírico Borges devorador de milk-shakes — manteria silêncio e distância segura. Naquela manhã a leitura de um Fritzgerald me provava o quanto era frívoJla a fama e o quanto era pequeno seu Gatsby. A eu via a vocação de Weber no trabalho de Hemingway, a inspiração ocorrida apenas e após longo esforço profundo, que a inspiração não substitui o trabalho, mas este, por outro lado, não poderia substituir, nem forçar o surgimento da inspiração. O trabalho e a paixão provocam a inspiração, especialmente quando ambos atuam juntos. As últimas trinta páginas de Joyce que valem uma vida ainda estavam na minha memória: Molly Bloom deitada para sempre sobre um colchão sujo, fumando e fazendo de cabeça a contabilidade de seus adultérios. Isso só era possível em Paris — a cidade das possibilidades infinitas — como alguém já escreveu. Sorvo um capuchino com gerúndio e ruído tão avesso à etiqueta, ao bom modo à mesa, mano a mano, frente a frente ao meu semblable, meu adversário, meu frère, a espera que me surgisse na cabeça uma frase de efeito que quebrasse a quietude e terminasse este shadow boxing diante do espelho.
Penso em partir para o ataque como um desafiante que não tem nada a perder. Com a Parker que o Fábio me presenteou no peito, levanto, aproximo, peço licença e um autógrafo.
Paul McCartney: OFFICIALLY PRONUNCED DEAD
Batem à minha porta. Abri. Era Borges com expressão assustada. Faço-o entrar e sentar. Ao sentar-se perguntou sobre a vitrola. Apontei a estante. Sorriu aliviado. Abriu sua pasta de couro e tirou quatro discos e um compacto. Pediu que colocasse o primeiro disco para tocar na faixa escolhida. Num momento da música chamou-me a atenção para a seguinte frase: “Kicking Edgar Allan Poe”. Tal citação não me disse nada demais. Na capa do álbum, havia um dos componentes do conjunto fantasiado de morsa. Pensei na Patagônia, mas Borges sugeriu-me recordar das máscaras mortuárias utilizadas pelos esquimós nos funerais de seus chefes. Indicou uma foto em que havia uma mesa com uma tabuleta escrita: “I was”. Noutra capa de disco, vejo-os atravessar por uma faixa de pedestre: o primeiro vestido de branco como um médico, o segundo vestido com um casaco preto como um agente funerário, o terceiro estava descalço e o quarto a trajar uma mescla típica dos coveiros. Na rua se via, ao lado esquerdo, o muro de um cemitério londrino que me lembrou o túmulo de Marx que há muito visitei. Neste mesmo lado, um fusca com a placa 28IF recordou-me a infância em contraste ao carro funerário no lado oposto da foto. Borges seguiu, querendo fazer-me decifrar algo descoberto há pouco. Mostrou-me outra capa chamando a atenção para série de pessoas, na maioria mortas, que compunham a imagem, e uma corbeille de flores amarelas em formato de contrabaixo em posição que apenas um canhoto, como eu, poderia tocar. Borges relembrou-me que, na mitologia romana, essa era a cor dos ramos de árvore dados a Enéias para ressuscitar e depois visitar os mortos. Abriu as duas faces do Lp e os vi vestidos com trajes de gala de uma extinta polícia de Londres, reparei que havia um emblema na farda azul escrito O.P.D., sigla desconhecida para mim, mas traduzida por ele como Officially pronounced dead. No verso, três estão de frente e um de costas; um junta as mãos em forma de prece, outro aponta para onde se lê: “five o’clock”; sob a cabeça daquele que está de costas pode-se ler: “Within you — without you”. Eu ainda não havia compreendido o que ele queria que eu decifrasse. Foi então que me mostrou o disco branco e as letras das músicas acompanhadas por cruzes utilizadas em avisos necrológicos. Antes que eu perguntasse, colocou numa faixa que falava no número nove seguidamente, inverteu uma das quatro pistas da gravação estereofônica e foi traduzindo a voz que dizia: “Tirem-me daqui! Tirem-me daqui!… É melhor levá-lo a um cirurgião e também a um dentista. Procure um guarda”. Apontou dois versos que li: “Here’s another clue for you all/ The walrus was Paul”. Naquele momento, comecei a ligar as pistas. Coloquei o compacto para tocar e ouvi alguém dizer; “Cramberry sauces”, mas meu visitante sugeriu passar a vitrola de trinta e três rotações para quarenta e cinco. Passei e ouvi: “I buried Paul”. Um frio tomou-me a alma, compreendi. Borges, chorando, colocou um dos discos sobre o compacto, desligou o motor que movimenta as rotações, posicionou a agulha num ponto em que geralmente não é utilizado nos discos e girou lentamente com a mão em sentido contrário para revelar o oculto: “Paul McCartney is dead too”.
Nelson Rodrigues em São Paulo
Por ironia, procurei por Nelson Rodrigues pelas ruas de São Paulo. Antes que Marcelo me apresentasse no dia seguinte. Percorri a Praça da Sé, o Centro Velho, a Avenida Liberdade, embora soubesse o quanto ele considerava solitária a companhia de um paulista a ponto de andar só pela cidade. Nelson dizia que São Paulo está mais longe de nós do que a Índia, a África, a Oceania. Outras vezes dizia que São Paulo não é a Nova York da América do Sul como pensam os paulistas: é a Nova Delhi. Quando algum amigo seu dizia que viria à Sampa, ele sempre perguntava: “Por que não Tóquio que é muito mais próximo?”. Era improvável encontrá-lo, sequer imaginá-lo, na selva de esquinas, arranha-céus, luzes de neon, carros, ônibus, fábricas, buzinas, onde cada transeunte, cada guarda, cada comerciário, cada camelô, exalava uma solidão, segundo ele, jamais sonhada. O simples “bom dia” ou “olá” era um idioma fantástico mal, interpretado ou não respondido nesta cidade. Causava-me curiosidade e um pouco de perplexidade deparar com ele caminhando como um kamikaze, um suicida na solidão paulistana.
Na época, eu estava envolvido na intetona de me tornar dramaturgo. Andava pra cima e pra baixo na companhia de Brecht, Plínio Marcos e Bernard Shaw, na esperança de que cada palavra pronunciada por suas bocas fosse a chave para desencadear minha “obra” autoral. Cheguei a escrever uma peça, reunir um belo corpo de atrizes e dar um título marxista como mandava o script. Fracasso. Por mais que as atrizes fossem belas; por mais que minha mãe, minha tia, minha irmã e meus amigos me desejassem “merda” e que eu “quebrasse as pernas”; por mais que eu fosse aplaudido, foi tudo em vão. Os sentimentos, as idéias, as indignações, as heresias, as pornografias eram todas falsas e fingidas: apócrifas. Havia um abismo entre platéia e palco.
Depois disso, desisti. Passei (por terapia) a ler as peças de Nelson até surgir a necessidade urgente de encontrá-lo. Antes de conhecê-lo pessoalmente, mandei como forma de apresentação, alguns escritos meus pelo correio. A resposta não tardou a vir em envelope timbrado que poderia sugerir uma longa carta, mas que se resumiu a um acre e lacônico bilhete: “Há toda uma massa de frases feitas, de sentimentos feitos, de amores e ódios feitos. E você faz parte dela”. Além disso, alguns amigos me confidenciaram que ao folhear meu texto e passar os olhos ele dizia: “Não se faz teatro com livro de sociologia debaixo do braço”. Confesso que tais críticas só aumentaram meu interesse em encontrá-lo. Pensei em ir ao Rio, mas ele estava em Sampa e eu me perguntava: o que faria Nelson Rodrigues em São Paulo?
Ao depará-lo perdido nas mediações da Praça da Sé, convidei-o para um café. Com cortesia, ele recusou meu convite ácido demais para sua gastrite. Sugeri uma cerveja e, enfadado, ele respondeu:
— Sou homem de tomar água da bica.
Percebi seu tédio afetado pelo ar poluído. Por conta disso, apanhei seu braço e o conduzi ao boteco mais próximo e pedi uma garrafa de água mineral sem gás pra ele e um conhaque pra mim. Estava frio.
Para não adentrar de maneira oportunista no tema dos meus escritos fiz a Nelson a pergunta que não queria calar:
— O que te traz aqui a São Paulo?
Nelson fez um mistério de um minuto e alguns segundos de suspense para aguçar mais minha curiosidade antes de responder:
— Vim procurar por um diretor de teatro absolutamente burro. — respondeu com veemência.
Ao ouvir isso, compreendi que esta era mais uma provocação sua à paulistérica cidade. Sem perder o humor, sugeri que suas peças não precisariam então de um diretor, mas de um técnico de futebol.
Seus olhos brilharam:
— Boa idéia! Assim vou poder chamá-lo de burro a cada apresentação.
— E não é só isso. — disse eu — Você não percebeu o quanto atores e jogadores se assemelham tanto na vaidade, quanto na leviandade?
— Você tem razão. Basta apenas treiná-los e mostrar a eles o esquema tático numa lousa que eles seguirão a risca.
— Isso! E quando tiver um craque no palco, o improviso sairá como um drible.
Este curto início de diálogo encantou Nelson que comentou:
— Depois desta sou até capaz de tomar uma cerveja.
Seu comentário coincidiu com o garçom que acabava de nos trazer o conhaque e a água, mas isso não me impediu de pedir uma cerveja para nós dois. Fato que fez nossa conversa se estender por toda tarde até chegar aos nomes:
— Que tal o Zagalo? — perguntei.
— Retranqueiro! Recomendo-o para as peças do Sartre. — respondeu.
— Rinus Michels?
— Muito cerebral, indicaria ele para alguma do Brecht.
— João Saldanha?
— Muito meu amigo, mas comunista, melhor se ele trabalhasse numa peça do Gorki. Imagina ele treinando aquela gritaria final no último ato da Mãe?
— Telê?
— Muito trágico. Seria ideal para um drama shakespeareano.
Daí nosso diálogo se enveredou para o jornalismo e a literatura. Nelson disse que um jornal não é feito para esclarecer, mas para lisonjear opiniões e, por isso, um bom escritor deveria escrever em linha reta, de punho fechado, pois o ser humano não está no gesto épico ou sublime, está nos pequenos atos, nas atitudes mesquinhas e modestas. Isso me fez lembrar Tchekhov e me encorajou a bancar o aprendiz de feiticeiro e perguntar por qual caminho eu deveria seguir.
— Quem sou eu para sugerir algum caminho a alguém?
— Você é o teatro brasileiro.
— O teatro brasileiro é o Arena, é o Satyros. Lá qualquer bate-papo é chamado de laboratório e outro bate-papo se transforma em um seminário. E em cada metro quadrado há um ator, a cada dois passos se esbarra num autor. Eu sou apenas um homem no pretérito mais que perfeito.
Ri da sua ironia de intelectual subdesenvolvido:
— Minhas peças não são para o aplauso. — confidenciou.
— Para o que são então? — perguntei.
— Para a vaia!
— Por quê?
— Porque se o público me vaia, digo a mim mesmo: “Imbecis são eles!”
— E se te aplaudem?
— Digo: “Imbecil sou eu!”
Esta resposta me arrancou uma gargalhada e provocou o seguinte comentário:
— Nelson, você é um jazzista!
— Por acaso você está a me chamar de reacionário por estilo e revolucionário por improvisação?
Ri novamente, mas desta vez com cinismo, pois sabia que de uma simples frase emerge todo gênio ou todo canalha. O que me fez me fez lembrar Balzac que dizia que todos os grandes homens são monstros e comentar:
— Num poeta há sempre uma mulher bonita da pior espécie.
Nelson, zombeteiro, replicou:
— Sou um poeta de espartilhos!
Bertolt Brecht Remember
Foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht. Na época, Marcelo já me havia falado dele, principalmente de seus poemas, não de seu teatro. E era uma fase que eu precisava de teatro, muito teatro, pois escrevia um tema shakespereano chamado “Canção para bruxas da meia noite”. Era um sonho de uma noite de verão em que um poeta sobre uma bicicleta e uma noite sem lua cantava o passado com suas bruxas que atuaram sobre os cenários e ribaltas de seu peito para depois dormir em Paris ou em São Paulo nuas em apocalipses & núpcias. As atrizes seriam magas de cetim, purpurina e latão que fugiriam antes do aplauso. O elenco já estava escalado: Glicia, Camila, Cleide, Kátia — as belas de sempre. O cenário estaria nas ruas e salas, nas folhas e árvores, em cada canto que eu ia, em minha cabeça, em cada coisa que sou. O tema era uma paródia sobre as feridas biográficas que carregava pela cidade perdendo seus nomes endereços & números de telefone: Kelly nas Laranjeiras, Harumi nas Pitangueiras, Andréia nas Goiabeiras, Michele nas Figueiras, magas que agitavam suas vassouras na hora de cantar. Mas o tema da peça fracassou e desisti porque acabaram as mágicas das manhãs e tardes, o encanto do ônibus com as magas maquiadas, mas elas nunca foram esquecidas, mesmo depois de curadas. Apesar de tudo, aprendi que com minhas bruxas que eu poderia melhorar e que elas sempre me ajudariam a ver um pouco mais além. Mas não é delas que eu quero falar, é sobre Brecht.
Como disse no começo, foi Regina Pacis quem me apresentou Bertolt Brecht no Paço Municipal. Me recordo como fosse hoje de suas mãos sangrentas a contarem a história da infanticida Marie Farrar que foi acusada de ter assassinado uma criança, da seguinte forma: já no segundo mês de gestação, em casa de uma parteira, num sótão, ela tentou expulsar o desafeto com duas injeções, embora tivesse pago de imediato o estipulado e ter continuado a apertar a cintura, tomado aguardente com pimenta moída, o que apenas serviu de forte purgante, e o corpo continuava inchando, até ser surpreendida pelo nascimento. Marie Farrar era menina pobre, empregada, que no dia do natalício, com a barriga escondida dos patrões limpou as escadas, estendeu toda roupa que lavou, varreu a neve em volta da casa antes de parir. E pariu um filho igual aos outros filhos. Depois disso ficou pouco tempo na cama, pois a criança começou a chorar o que a obrigou a conter com esforço seus gritos para que ninguém descobrisse e se pôs a bater-lhe com os dois punhos até a criança ficar quieta. Levou o natimorto consigo para a cama durante o resto da noite e pela manhã escondeu-o na lavanderia e o enterrou na neve até o degelo revelar seu crime. Desta história, o que mais me marcou a memória era o refrão: “Mas o senhor não vos indigneis, pois todo ser humano precisa de ajuda”. Não fiquei indignado, apenas emocionado com aquele trágico aborto. Daí passei a ler tanto os Poemas Pedagógicos de Marcelo, quanto os Poemas Qüinqüenais de Brecht.
Depois de conhecê-lo, lembro das vezes em que Marcelo, Allan, Anderson, Fábio, toda a juventude socialista e eu bebíamos com Brecht no Bar Vermelho e ele dizia que “Em nossa terra quem é bom não consegue ser bom por muito tempo Quando os pratos estão vazios os homens atracam-se à mesa Os mandamentos dos deuses não influem na carestia da vida Por que os deuses não vão aos mercados distribuir alimentos em abundância? Com vinho e pão garantidos os homens seriam bons e fraternais” & nós lhe falávamos dos nossos sonhos Máquinas de Fazer Sanduíches Gratuitos & a Coca-Cola sob controle do Estado distribuída no colégio na hora do recreio & cigarros sem nicotina & pílulas anticoncepcionais ao lado dos chicletes & pílulas contraceptivas ao lado do band-aid nas docerias & cupons para ir ao puteiro por uma hora pelo menos uma vez por mês & revistas do Batman e livros do Baudelaire na cesta básica, Brecht simplesmente ria da nossa ironia de esquerda festiva naqueles dias que encerravam uma época e as cortinas se fechavam antes do aplauso.
The Ballad of Carson McCullers

Conheci Carson McCullers no colégio. Ela fazia parte da turma das fumantes que incluía a Izabel, a Raquel e a Vanessa. Na época eu ainda não escrevia. Minha atividade escrita se resumia às aulas de redação da professora Luciana, as últimas cartas à Tatiana Yanaba e as penúltimas à Érica Azzem, alguns poemas piegas e algumas letras para as canções do Allan. Ainda não era escritor, apenas um rascunho, mas Carson era. E por conta disso compartilhávamos conversas, risos e cafés, e sempre chegávamos a mesma conclusão: “Nada de finais felizes”. Foi Carson quem me ensinou a tomar conhaque com café. Minto. Foi a Verônica, mas isso pouco importa. O importante era os contos de Carson. Eu queria fazer música em meus textos e ela cinema nos dela. Em seus contos havia a tristeza e transitoriedade das coisas. Naquela tarde vazia em que Rafaela me ligou, li num único fôlego A Balada do Café Triste, parava apenas para soluçar, para secar minha miopia molhada. O título me sugeriria um cara triste como eu, sentado num Café, tomando um café triste. Nada mais distante do quadro de pessoas comuns, frágeis, deformadas, descritas naquela paisagem do sul, no interior do interior do interior. Carson escrevia que depois de algum tempo se aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma, e aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança, e começa-se a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas, e começa-se a aceitar nossas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a raça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E eu tão acostumado a perder de ippon ou no hantei não havia aprendido ainda a perder na vida.
Diante disso, escrevi minha Balada do Café Triste que era a história de um cara que não sabia perder. O título roubado de Carson poderia ter sugerido algum plágio de minha parte, mas não era. Assim que escrevi meu primeiro conto, o apresentei a professora Luciana que depois de lê-lo, e corrigir meus excessos de erros gramaticais, o criticou. Naquele tempo ainda não havia aprendido que nada mais ridículo para um autor que auto-explicar-se e disse em tom despudoradamente confessional:
— Minha história é esta! Este é o problema!
Antes que me perca nos labirintos de minha memória em meio a minha mitologia particular, ainda lembro de Carson como se ela gostasse de tocar piano ao fim do dia, tomando qualquer coisa leve como chá de jasmim ou anis, mas isso seria mentir para mim mesmo e esquecer que ela foi forçada por uma febre reumática a desistir do sonho da carreira de concertista e, sem energia para os rigores da prática pianista, lia com voracidade enquanto se recuperava da doença e passava a considerar a escrita como uma única vocação.
Nesta época, fiz uma visita antes dela partir para Nova York sob o pretexto de estudar piano, mas que na verdade era apenas um plano para prosseguir a ambição secreta de escrever e sair de casa aos dezessete anos. Os pedaços de lembranças, a melancolia e a lucidez que nascem muitas vezes a partir de uma fenda de vergonha me faz recordar que não tive coragem de lhe mostrar meu conto criticado por nossa professora. Até hoje não sei se meu receio era por apresentar tamanho texto tão mal escrito ou por ter-lhe roubado o nome. Talvez o temperamento difícil e a tristeza em seus olhos me desencorajassem. Por covardia apenas hoje confessa, deixei o conto seguramente dobrado e guardado dentro do bolso enquanto tomávamos escondidos algumas doses de whisky e brincávamos com nossos corpos como crianças brincam de médico de tal forma que não transamos apenas por distração.
Depois disso nunca mais nos juntamos para beber, brincar e falar de literatura. Li seus sucessos e enfermidades à distância, ora com sorriso na boca, ora com lágrimas nos olhos. Soube que uma infecção respiratória a deixou acamada por vários meses. Durante este período, ela começou a trabalhar em seu primeiro romance, também soube que um conto seu bastante “autobiográfico” foi publicado na revista da Universidade. Tomei conhecimento que ela se casou com James Reeves e que o casamento foi, ao mesmo tempo, a relação mais destrutiva e criativa de sua obra, e que o alcoolismo, a inveja e a bissexualidade de ambos os levaram à várias separações e reconciliações. Soube também que após um pacto suicida entre Carson e James (cumprido apenas por ele), ela retornou à casa dos pais onde viveu, escreveu, adoeceu até o fim. Por vezes, prometi a mim mesmo, visitá-la, convidá-la para jantar em alguma cantina italiana ou simplesmente cozinhar um strogonoff com champignon que aprendi com ela. Minto. Aprendi com a Regina, mas isso também pouco importa.
O mais impactante foi a imagem dela numa tarde remota em que a vi caminhar com dificuldade pelo outro lado da rua, solitária e deformada fisicamente como alguma personagem sua, sabia que isso era efeito do mais recente derrame e da paralisia provocada por ele. Mais uma vez fui covarde, um canalha em flor. Não tive coragem de atravessar a rua, de lhe dar um abraço, um apoio, de ouvir suas histórias de pessoa simples e doente. O declínio acentuado de sua saúde e capacidade criativa criavam em mim a incômoda compaixão e paúra de meu próprio declínio. Depois disso tomei conhecimento de que ela, com o lado esquerdo todo paralisado, escrevia à máquina, deitada de dor, com apenas um dos dedos, um livro de poemas para crianças que seria doce como uma salmoura e limpo como um porco. De repente me vi tão mesquinho e incompreensivo, deformado de caráter como algum personagem seu, sabia que isso era efeito da paralisia de um coração morto dentro de um corpo ainda vivo.
A Desforra de Dorothy Parker
Dorothy Parker foi uma das escritoras mais arrivistas que conheci. E digo isso sem ironia já que o arrivismo é prática comum entre os escritores. Mas o arrivismo de Dorothy tinha qualquer coisa de tropical e marota. Inclusive a ela devo o hábito de escrever crônicas, pois numa época em que eu estava demasiado “literato”, ela me convidou para escrever algumas crônicas num jornal local. Nesta época, eu costumava a dizer que “crônica não é literatura”, mas mesmo dando de ombro ao gênero, aceitei o convite e escrevi algumas cronicazinhas para seu folhetim. Não sei se por conta de meu machismo esportivo ou por qualquer outro motivo mercadológico ou feminista, a então pretensa editora chefe deixou de solicitar meus modestos escritos. Era justamente na função de editora que Dorothy se especializava na arte da astúcia. Vira e mexe ela me convidava para participar de antologias que nunca seriam publicadas e projetos que jamais iriam prosperar. E quando a proposta ou esquema poderiam ser bem sucedidos, ela habilmente me excluía: como um curso que elaboramos juntos e apenas ela foi convidada e nada me informou. Mas minha fingida ingenuidade a deixava confortável o bastante a ponto de não ter peso na consciência e poder me contar novas piadas. Dorothy era uma excelente piadista e seu senso de humor ácido era o que me fazia perdoar todo o seu oportunismo.
Certa vez, Dorothy me convidou para participar de uma entrevista com a escritora Márcia Denser, na circunstância levei a amiga mais “denseana” que conhecia. Na entrevista, Vanessa e eu percebemos que, dentre os vários entrevistadores, éramos os únicos que haviam de fato lido a obra da entrevistada, de modo que aproveitamos a ocasião e o vinho para tornar aquele encontro pseudo-jornalístico em algo mais confessional ao falar de afetos e desafetos literários, trocar confidências com Márcia a respeito de nossos mestres Goethe e Joyce, que Dorothy e os demais pouco conheciam. Embora esta lembrança possa sugerir certo pedantismo de minha parte, creio que minha maior grosseria ou gafe, que fez Dorothy publicamente me chamar de arrogante, ocorreu na primeira vez que fui a sua casa. Tenho o inevitável hábito — muito criticado por uma Ex que dizia ser “falta de educação” — de ignorar toda e qualquer arquitetura, dimensão e decoração de uma casa para fixar toda minha atenção na biblioteca pessoal. Quando piso em alguma casa é a primeira coisa que meus olhos procuram é a prateleiras de livros. Na casa de Dorothy não foi diferente. Ao olhar atentamente a bibliografia na parede, não sei se por impudor ou imprudência perguntei: “Dorothy, a boa literatura da casa está escondida?”. Na estante não havia nada além daqueles irrelevantes autores de língua inglesa e francesa que costumamos desqualificar por um único adjetivo composto: best-sellers. A dona da casa disse qualquer ironia que hoje sou incapaz de recordar: o rancor ficou.
A desforra não tardou mais que alguns meses. Depois de uma reunião sobre mais um projeto fadado ao fracasso, Dorothy, incapaz de me convidar novamente para mais uma de suas antologias nunca publicadas e incapaz de me incluir em mais um plano previamente malogrado, pois acabávamos de sair de uma reunião sem muita perspectiva, me propôs um singelo e terno convite: “Vamos almoçar lá em casa?”. Embora não estivesse com fome, um convite para novas apreciações culinárias sempre seduzem meu paladar. Aceitei. Ao chegarmos a sua casa a surpresa: não havia o que comer. Embora soubesse que Dorothy fizesse parte daquela classe média decadente que faz todo malabarismo econômico para manter uma boa moradia e dois carros na garagem, não poderia imaginar que tal contorcionismo chegasse à dispensa. Lembrei do Nelson Rodrigues que me dizia que improvisar um bife e um prato a mais muitas vezes constitui uma tragédia. Pensei: “É o prato vazio vingança”. Ela, um tanto constrangida, sugeriu que fôssemos a um restaurante próximo. Eu, bastante contrariado, não quis desfazer aquela sensação de desconforto e citei o Viramundo do Fernando Sabino: “Infelizmente, hoje estou desprevenido!”. Dorothy não teve mais o que fazer além de se despedir de mim e nunca mais me convidar para nenhum projeto, antologia ou almoço.





